A Odontologia aportou no Brasil, a partir da descoberta do Brasil
por Pedro Álvares Cabral em 22 de abril de 1500. Naquela época o
que existia eram as extrações dentárias. As técnicas eram quase
primitivas, o instrumental impróprio e não havia nenhuma forma de
higiene. Anestesia, nem pensar. A odontologia era praticada pelo
barbeiro ou sangrador,desinformados. As técnicas de "curar de cirurgia,
sangrar e tirar dentes" eram passadas sem qualquer teoria.
Com tantos riscos para os pacientes, o exercício da odontologia
era evitado pelos médicos e cirurgiões da época, que temiam se responsabilizar
pela presente possibilidade de morte por hemorragias e inevitáveis
infecções.
A odontologia era vista como uma prática que tornava as mãos dos
profissionais de medicina pesadas, diminuindo a destreza para intervenções
consideradas delicadas.
Para exercer a odontologia da época os barbeiros ou Tiradentes necessitavam
da licença especial conferida pelo "cirurgião-mor mestre Gil". Quem
não possuía essa licença poderia ser preso e multado. A reforma
do regimento em 12 de dezembro de 1631 determinava a multa de dois
mil réis às pessoas que "tirassem dentes" sem licença. Os oficios
de Tiradentes e sangrador eram acumulados pelos barbeiros. O sangrador
também podia tirar dentes, pois nos exames de habilitação tinham
de provar que durante dois anos "sangraram" e fizeram as demais
atividades de barbeiro.
Em 1728, na França, o livro Le Chirugien Dentiste au Traité des
Dents, de Piérre Fauchard, revolucionou a odontologia, ao trazer
novos conhecimentos, criando técnicas e aparelhos. Por isso, Fauchard
é chamado sendo juntamente de "o pai de Odontologia Moderna".
Com o início do ciclo do ouro no Estado de Minas Gerais, a Casa
Real Portuguesa nomeia o primeiro cirurgião-mór deste Estado, regulamentando
os práticos da arte dentária. A Lei 17 de junho de 1782 cria a Real
Junta de Proto-Medicato, formada por sete deputados, médicos ou
cirurgiões, para um período de três anos. A essa junta caberia a
estes o exame e a expedição de cartas e licenciamento das pessoas
que tirassem dentes.
Nas últimas décadas deste século, Joaquim José da Silva Xavier praticou
a Odontologia que aprendera com seu padrinho, Sebastião Ferreira
Leitão. Seu confessor, Frei Raymundo de Pennaforte disse sobre ele:
"Tirava com efeito dentes com a mais sutil ligeireza e ornava a
boca de novos dentes, feitos por ele mesmo, que pareciam naturais".
Nessa época os dentes eram extraídos com alavancas rudimentares,
e o pelicano. Não havia tratamento de canais e as obturações eram
de chumbo, sobre tecido cariado e polpas afetadas. As conseqüências
eram desastrosas. A prótese era bem simples, esculpindo dentes em
osso ou marfim, que eram amarrados com fios aos dentes que haviam
sobrado.
Dentaduras eram esculpidas em marfim ou osso. Dentes humanos e de
animais eram utilizados e retidos na boca por molas, sistemas também
usados na Europa. Os barbeiros e sangradores aprendiam o ofício
com um mais experiente e tinham que provar uma prática de dois anos,
depois de pagar a taxa.
Em 23 de maio de 1800, foi criado o "plano de exames", um aperfeiçoamento
das formalidades e dos exames. Nesse ano é encontrado pela primeira
vez em documentos do Reino, o vocábulo "dentista". Porém, o termo
foi criado pelo cirurgião francês Guy Chauliac e apareceu pela primeira
vez em seu livro "Chirurgia Magna" publicado em 1363.
Em março de 1808, fugindo das forças francesas, o príncipe regente
D. João VI, sua corte, totalizando cerca de 15 mil pessoas chegaram
a Salvador, tornando-se o Brasil por esta contigência sede do reino.
No hospital de São José, na Bahia, foi criada a Escola de Cirurgia.
Os ditados populares da época: "ou casa, ou dente" - ou "ou dente,
ou queixo, ou língua, ou beiço" indicavam que devido ao pouco conhecimento
e inabilidade dos "tira-dentes" ocorria freqüentemente traumatismos
nestas regiões.
Para moralizar esta atividade ante as inúmeras queixas contra os
profissionais, o cirurgião-mór determinava em suas "cartas", que
o barbeiro poderia exercer a sua arte com restrições, "não sangrando
sem ordem de médico ou cirurgião aprovado e não tirando dentes sem
ser examinado".
Antes do final de 1808, D. João VI transfere-se de Salvador para
o Rio de Janeiro. Em 07 de outubro de 1809 é abolida a Real Junta
do Proto-Medicato. Todas as responsabilidades ficaram ao encargo
do físico-mór do Reino era Manoel Vieira da Silva, encarregado do
controle do exercício de Medicina e Farmácia e o cirurgião-mór dos
exércitos, José Correa Picanço tinha poderes análogos em relação
à cirurgia, controlando o exercício das funções realizadas pelos
sangradores, dentistas, parteiras e algebristas.
Nesta época o mestre Domingos, "barbeiro" popular no bairro da Saúde,
Rio de Janeiro, se tornou famoso. O negro exercia sua atividade
também na casa de clientes. Sob o braço levava uma esteira de taboa,
que servia de cadeira e uma enferrujada chave de Garangeot. Dado
a manobras intempestivas, algumas vezes extraía também o dente vizinho,
mas cobrava apenas um. Às crianças, sugeriu que o dente extraído
fosse jogado no telhado, dizendo antes e por três vezes: "Mourão,
toma teu dente podre e dá cá o meu são".
Em 1820, o cirurgião mór concedeu ao francês Doutor Eugênio Frederico
Guertin a "carta" para exercer sua profissão no Rio de Janeiro.
Era diplomado pela Faculdade de Odontologia de Paris e aqui atingiu
elevado conceito, atendendo a maior parte da nobreza, inclusive
D. Pedro II e familiares. Publicou em 1819, 'Avisos Tendentes à
Conservação dos Dentes e sua Substituição', a primeira obra de odontologia
feita no Brasil.
Outros dentistas franceses vieram a seguir trazendo o que havia
de melhor na Odontologia mundial.
As dentaduras eram constituídas de duas fileiras de dentes, esculpidas
em marfim ou adaptadas em base metálica, e as arcadas ligadas por
molas elásticas. Em 01 de junho de 1824, Gregório Raphael Silva,
do Rio de Janeiro, recebeu a primeira "carta de dentista" após a
Independência do Brasil.
No dia 30 de agosto de 1828, D Pedro I (1798-1834) suprime o cargo
de cirurgião-mór, cujas funções passaram a ser exercidas pelas Câmaras
Municipais e Justiças Ordinárias. Mais ou menos nesta época, graças
ao francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) que viveu no Brasil
de 1816 a 1831, reproduzindo em gravura a vida brasileira durante
o Primeiro Império, Há uma única obra iconográfica do século passado
relacionada a atividade de profissionais que exercita a Odontologia.
Denomina-se "Boutiques de Barbieri" e retrata dizeres: "barbeiro,
cabellereiro, sangrador, dentista e deitão bichas".
Em 1839, é criada por Chaplin A. Harris, em Baltimore, Estados Unidos,
a primeira Escola de Odontologia do mundo: Colégio de Cirurgia Dentária.
Um dentista português, Luiz Antunes de Carvalho, obteve notoriedade
e riqueza, sendo um dos pioneiros na cirurgia buco-maxilar no Brasil.
Em 18 de janeiro de 1832 havia obtido em Buenos Aires o direito
de exercer a profissão. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1836,
sendo o primeiro dentista a registrar sua "carta" na secretaria
da Câmara Municipal. Ficou famoso na Argentina pela propaganda em
forma de versos e depois em prosa. Já se fazia marketing. No Brasil
foi mais comedido, mas demonstrando sempre ser profissional conhecedor
e atualizado, publicou no Almanak Administrativo Mercantil e Comercial:
"Luiz Antunes de Carvalho enxerta outros dentes nas raízes dos podres,
firma dentes e dentaduras inteiras, firma quexos, céus da boca,
narizes artificiais e cura moléstias da boca, rua Larga de São Joaquim,125".
Foi aprovado também na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e
o primeiro a se registrar na Junta de Higiene, criada em 1850, em
substituição à fiscalização exercida pela Câmara Municipal. A partir
de 1840 começaram chegar dentistas dos Estados Unidos e pouco a
pouco suplantam os colegas franceses. Luiz Burdell foi o pioneiro,
seguindo-se Clintin Van Tuyl, o primeiro a utilizar clorofórmio(só
em casos excepcionais) para anestesia, conforme cita em seu livro:
"Guia dos Dentes Sãos publicado em 1849.
O Doutor Whittemore, que tornou-se mais tarde o dentista da Corte
Imperial, propalava em 1850 ter recebido "uma porção de clorofómio
puro para tirar dentes sem dor". Nenrique C. Bosworth também se
destacou.
Em 1850, pelodecreto
lei 598 é criada a Junta de Higiene Pública, que possibilitou a
Medicina uma enorme evolução, principalmente pelas medidas saneadoras.
Os três primeiros dentistas que se registraram: Luiz Antunes Carvalho
(1852), Emilio Salvador Ascagne (1859) e Theotônio Borges Diniz
(1860). Mentes mais lúcidas procuravam a melhoria do ensino e normas
um pouco mais criteriosas e moralizadoras àqueles que desejassem
praticar o Medicina e Odontologia.
Através do decreto de 15 de agosto de 1851, os novos estatutos da
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro foram aprovados em 28 de
abril de 1854, por proposta de seu diretor, Doutor José Martins
de Cruz Jobim. A nomeação contribuiu para o desenvolvimento da profissão,
principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Em setembro de 1869,
graças a João Borges Diniz, surge a primeira revista odontológica:
"Arte Dentária".
Mais dentistas chegam dos Estados Unidos, alguns fugindo da Guerra
da Secessão (1861-1865): Samuel I. Rambo, Carlos Koth, Witt Clinton
Green, Preston A.Rambo, Jonh William Coachman, William B. Keys,
Carlos Keys, etc.. Estes três últimos pertencentes à mesma família,
constituindo-se até hoje no maior contigente de cirurgiões-dentistas
no Brasil (cerca de 120 profissionais de uma só árvore genealógica).
Com os Estados Unidos liderando a evolução técnica e científica
mundial, era compreensível que muitos brasileiros para lá se dirigissem
afim de se aperfeiçoar. O primeiro foi Carlos Alonso Hastings, natural
do Rio Grande, que estudou no Philadélfia Dental College, radicou-se
no Rio de Janeiro e modificou o motor Weber-Ferry, que ficou conhecido
como motor de Hastings. A seguir viajaram Fio Alves, Também do Rio
Grande, os irmãos Gastal, de Pelotas, Francisco Pereira, Alberto
Lopes de Oliveira (Universidade de Maryland) e outros.
O decreto nº 8024 de 12 de março de 1881, art. 94 do Regulamento
para os exames das Faculdades de Medicina diz: "Os cirurgiões-dentistas
que quisserem se habilitar para o exercício de sua profissão passarão
por duas séries de exames: - O primeiro de anatomia, histologia
e higiene, em suas aplicações à arte dentária. O outro de operações
e próteses dentárias.
Ante os fatos narrados, faltava apenas um líder e visionários para
instituir o ensino da Odontologia no Brasil. Vem na pessoa de Vicente
Cândido Sabóoia (1835- ), mais tarde Visconde de Sabóia que, assumindo
a direção da Faculdade de Medicina em 23 de fevereiro de 1880, resolveu
inicialmente atualizar o ensino, tanto material como cientificamente.
Logo a seguir cria o laboratório de cirurgia dentária, encomendando
aparelhos e instrumentos dos Estados Unidos. Com crédito especial
obtido na lei 3141 de 30 de outubro de 1882, monta também o laboratório
de prótese dentária.
Pelos decretos 8850 e 8851 de 13 de janeiro de 1883, o cirurgião-dentista
Thomas Gomes dos Santos Filho presta provas em concurso realizado
em 22 de maio de 1883 e é aprovado em primeiro lugar como preparador.
De personalidade marcante, a odontologia nacional muito deve a ele,
principalmente por ter descoberto a fórmula de vulcanite e em seguida
produzi-la. Conseguiu dessa forma suprir a falta de material e combater
os preços abusivos.
Graças ao empenho de Vicente C. F. de Sabóia e Thomas Gomes dos
Santos Filho, houve um novo texto nos Estatutos das Faculdades de
Medicina do Império, denominada Reforma Sabóias, apresentado dia
25 de outubro de 1884 através do Decreto nº 9311 com seguinte enunciado:
"Dá novos Estatutos às Faculdades de Medicina".
- Usando da autorização concedida pelo art. 2º, Paragrafo 7º, da
lei 3141 de 30 de outubro de 1882: - Hei por bem que nas Faculdades
de Medicina do Império se observem os novos estatutos que com este
baixam, assinados por Filippe Franco de Sá; do Meu Conselho, Senador
do Império que assim o tenha entendido e faça executar. Palácio
do Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1884, 63º da Independência
e do Império. Com a rubrica de sua Majestade o Imperador Filippe
Franco de Sá.
Pela primeira vez, no art. 1º, vinha consignado que a odontologia
formaria um curso anexo. Assim:
Art. 1º - Cada uma das Faculdades de Medicina do
Império se designará pelo nome da cidade em que tiver assento; seja
regida por um diretor e pela Congregação dos Lentes, e as comporá
de um curso de ciências médicas e cirúrgicas e de três cursos anexos:
o de Farmácia, o de Obstetrícia e Ginacologia e o de Odontologia.
N.B.-
a) Havia apenas as Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e de Salvador.
b) Compreende-se porque a primeira Escola de Odontologia
de São Paulo , criada em 07 de dezembro de 1900, denominou-se nos
primeiros anos , Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia de
São Paulo.
No capítulo II, a Sessão IV tem o título: "Do curso de Odontologia"
- Art. 9º. Das matérias deste curso Haverá três séries:
1ª série - Física, química mineral, anatomia descritiva
e topografia da cabeça.
2ª série - Histologia dentária, fisiologia dentária,
patologia dentária e higiene da boca.
3ª série - Terapêutica dentária, cirurgia e prótese dentárias.
Os três primeiros mestres no Rio de Janeiro foram:
Thomas
Gomes dos Santos Filho ( ), Aristides Benício de Sá (1854-1910)
e Antônio Gonçalves Pereira da Silva (1851-1916) que prestaram relevantes
serviços à Odontologia.
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